Gosto de observar desconhecidos e imaginar histórias para eles. Recentemente fiz uma viagem com meu marido e fazíamos isso no metrô. Olhávamos as pessoas, cada uma falando uma língua e usando uma roupa diferente, e inventávamos uma vida para ela. Brincadeira boba e engraçada, mas que pode ser profunda ao nos reconhecermos um pouco em cada um que perambula sob nossas vistas.
Um lugar que é perfeito para isso é o aeroporto. Desde criança gostava de passear por lá, afinal morava perto de um, não custava nada, né? Mas o máximo que minha família ia era até a Região dos Lagos, então não perdia a oportunidade de ir quando tinham que buscar amigos e parentes ou visitar uma tia minha que trabalhava em uma livraria. Lia os livros de graça e olhava as pessoas.
São tantas histórias, choros, risadas e abraços intermináveis. Cheguei a pensar que podiam fazer um filme ou programa de tv. E não é que anos depois não fizeram? O Chegadas e Partidas, que passa no GNT, com a apresentadora Astrid Fontenelle virou meu programa preferido. É sensível, dolorido e gostoso de assistir.
Eu acabei me vendo em uma dessas muitas histórias que eu gostava de inventar. Talvez hoje olhem pra mim e imaginem também porque estou chorando ou rindo, no que estou pensando ou vou fazer. Nos últimos anos passei mais tempo me despedindo do que gostaria. Já vi meu amor sumir dentro de um navio gigantesco, já fui embora pra longe da família, já me despedi de um amigo que foi pra guerra e não voltou. Consolei uma amiga grávida aguardando o avião do marido que não chegou - preso no terremoto do Haiti.
Mas a vida das pessoas que vivem longe dos aeroportos corre. E corre rápido. Às vezes elas nem se dão conta de que seu avião pousou. O número de pessoas que te recebem agora é menor, mas os que estão ali derramam as lágrimas mais preciosas. E quando menos se espera, são poucas as pessoas que realmente sentem a sua falta. Bate a tristeza, mas também nasce uma alegria de saber que aqueles poucos sobreviventes ficarão ao seu lado sempre que precisar, sempre que você chegar novamente.
Hoje entendo mais do que nunca as pessoas que eu assistia desde pequena partir. Nem sempre elas têm opção, nem sempre elas podem ter tudo o que querem. Um sonho, um amor ou motivação as empurram como as malas nas esteiras na esperança que alguém não as lance tão longe e que perguntem ao menos antes: "tem algo frágil aí dentro?"
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